quinta-feira, 25 de julho de 2013

A carta que eu não escrevi pra você.

“Nos encontramos há tempo suficiente pra eu dizer que te conheço bem. Sei dos seus hábitos, dos seus erros e que você detesta rotina, apesar de sentir mais segura tendo uma. Você é uma menina que quer parecer grande o tempo todo. Pros outros. Às vezes pra mim também, mas desiste logo no começo das tentativas e é apenas você.

Eu vi, de fora, cada passo em falso que você deu. Suportei suas traições, desde as pequenas, quando me prometia algo e depois fazia tudo completamente diferente; até as maiores, quando vi se entregar com paixão a tantas mulheres só para que pudesse afirmar seu ego – às vezes ferido. Paixão… este sentimento arrebatador que eu nunca tive certeza de que já sentiu por mim. 

O que te move, minha pequena? Já te vi sonhar alto a ponto de quase tocar os raios do sol. E você triunfou, muitas vezes, me arrrancando lágrimas incontidas. E você também caiu, incontáveis vezes, escorregando em alguns vãos desta escada secreta chamada destino. Até hoje você não acredita verdadeiramente em destino. Diz acreditar, mas no fundo é só apego à ideia de que há um roteiro da vida. Se há? Bem, infelizmente não posso te dar a resposta.

Você acorda por quem? Se arruma pra quem? Se arrisca nessa selva cotidiana movida pelo quê? Não é pelo dinheiro. Não é só pela emoção de realizar algo importante, de se sentir importante pelo que faz. Quer aplausos? Reconhecimento? Amor? Os aplausos silenciam até um próximo ato. E um dia você vai se dar conta de que cada pecinha é importante nessa engrenagem que move o mundo, estejam elas mais próximas ou distantes dos holofotes. Amor… é tudo isso que você pode sentir agora, amanhã, ou quando você quiser. 

Esta é a carta que eu não escrevi pra você. Escrevi pra mim. Aqui, o remetente e destinatário são a mesma pessoa, mas que neste momento precisavam se encontrar.”


Autora: Ma.

http://sapatomica.com/blog/2012/06/22/a-carta-que-eu-nao-escrevi-pra-voce/

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sobre os meus passos sem você.

"Hoje no trem voltando de Londres me dei conta de que alcançamos o maior tempo sem trocar uma palavra um com o outro desde que nos aproximamos. Tem sido complicado pra mim, sabe? Antes era só a falta física de você. Sabíamos que não ia ser fácil ter um oceano de distância entre a gente, mas pelo menos eu sabia você estava aí, do outro lado da linha. Agora está tudo meio fora de lugar.
Minha vida sem você tem estado estranha. Imaginei que ela fosse voltar pro que era antes de você dobrar a esquina do meu átrio direito e se instalar ali: dias normais com garotas sem graça, mas não. Eu cresci tanto com você que não consigo mais voltar ao tamanho que tinha antes, como se eu estivesse fora do lugar, sabe? Sem você eu sinto que não me encaixo mais na minha própria vida.
Sem você aí do outro lado eu só tenho as fotos e os registros das conversas que tivemos pra lembrar dos dias bons. Sem você acho eu tenho ido bem. Quer dizer, ninguém morreu, além da minha visão sonhadora de mundo. O problema são as noites. As madrugadas, na verdade. É, as madrugadas têm sido difíceis, não tenho bem a certeza do porquê…Talvez porque fosse a hora que nos falávamos mais, ou porque seja a hora em que a gente deita a cabeça no travesseiro e a saudade aperta o coração. Às vezes chega a doer.
Tem feito mais frio do que deveria fazer em junho. Outro dia até nevou, você acredita? Os dias sem você têm sido sempre negativos e em preto e branco e por mais que eu use cachecóis e luvas, falta o vermelho dos seus cabelos aqui pra esquentar as coisas. Tenho bebido mais desde que você foi embora também. Aqui no meu quarto tem uma vazia de merlot, um sauvignon, um carmenere e um shiraz, daqueles que você disse que gostava, lembra? Não tinha bebido essa uva antes de você. Na verdade, não conhecia muitas coisas antes de você. Saber que eu fico bem de barba, o que é uma pirueta de ballet, descobrir meu gosto por carros esporte e o nome daquela coisinha na unha que eu gosto que você faça foram umas delas. Ser plenamente feliz também foi uma coisa que eu descobri com você.
Sem você tem sido difícil me adaptar com as coisas, me acostumar. Outro dia quase chamei uma inglesa aqui pra sair. Quase, porque aí eu percebi que ela não tinha seu sorriso, nem seus olhos, nem seu cabelo. Nem suas pernas, nem seus lábios, nem seu cheiro. Aposto que ela não sabe usar um cachecol do jeito que você usa. Sem você as outras meninas perderam a graça.  Desde que você foi embora, foi embora meu norte também. Tem dias que eu me perco no caminho do pub pro flat. Todos aqueles planos e as verdades absolutas que eu sempre tive também foram depois que você foi embora. Não tem mais poesia, só prosa. Como essa aqui.
Tenho ido bem sem você, tirando o fato de que sem a sua boca meus lábios racham de frio ou que sem seu sorriso tá tudo mais nublado aqui. Sim, eu tenho ido bem sem você. Até aprendi a mentir."
Autor: Douglas Cordare.